GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA E PERIFÉRICA
Guardo uns minutos da minha noite, para pensar sobre a vida...
Hoje, eu penso naqueles jovens- pobres, negros, periféricos- que foram sumariamente executados pela polícia... Pra mim, é impossível não pensar neles, porque eu sinto, sinto tanto por eles... Imagino a felicidade que é, receber o primeiro salário, (eu já senti isso)... A sociedade só nos trata como seres humanos, depois de nos transformar em meros trabalhadores (e talvez por isso, o fato de ter um emprego gera tanta felicidade), conseguir um emprego decente, quando a sociedade só te empurra para o mundo do crime, quando ela legitima essa desigualdade de direitos e oportunidades, quando ela te ver como um preto vagabundo e favelado, quando ela afirma, que se você não está na faculdade é porque não quer... Conseguir emprego? é motivo pra comemoração.
Entende o que significava gastar o primeiro salário? A felicidade exala...
Eu posso sentir esse prazer, eu senti. Sair de carro, acompanhado de amigos, pensando na felicidade que é poder usufruir de coisas que só o o dinheiro pode proporcionar.
Sabe? Pensar grande, ter um futuro, ajudar a família, fazer uma faculdade, ser gente, porque eu nunca fui gente pra essa sociedade. Ser gente, é ser branco, é fazer faculdade, é ter um carro... ter uma casa ampla, arejada, é nunca ser abordado pela polícia, nunca levar baculejo, nunca e jamais ser confundido com um bandido... Pra sociedade o cidadão que se encaixa nesses moldes, é do bem, os outros... Ora, que outros? "Bandido bom é bandido morto". "Tudo bandido".
Quando aqueles policiais assassinos, pararam aquele carro, eles não queriam conversar, eles queriam aniquilar, matar, destruir. E quem se importa?
E quem os vê? Invisibilizados, marginalizados, subalternizados, mortos... A sociedade os mata cotidianamente: na escola, na rua, nos postos de saúde, nas escassas oportunidades, na favela... Ora, ora e quem se importa com essa gente? Eles tem duas opções, cadeia e cemitério... Ninguém se importa. A sociedade produz a desgraça para alimentar-se. Ela fabrica a miséria, o desemprego, a discriminação, ela nos ensina a servir docilmente a exploração... Ela sobrevive das misérias que mesmo produz. O Estado é o gestor da guerra, pura e simplesmente.
Cláudia, Amarildo... lembra? quem se importa? Quem tá preso? O que mudou?
Sonhos interrompidos, sorrisos partidos, corações tristes, frios... sem alma, sem justiça... Mas o que é a justiça? A justiça é atraída pela cor, pelo cheiro de dinheiro, pelo quanto você é importante... . Quem se importa?
Genocídio da juventude negra e pobre, polícia licenciada e institucionalizada para matar. Sabe na favela? a polícia não mata, é meramente auto de resistência.
Quem se importa? Quem se impoooooooooooooooooorta?
Eu não sou da paz.
Roberto de Souza, 16 anos, Carlos Eduardo da Silva Souza, 16, Cleiton Corrêa de Souza, 18, Wesley Castro, 20, e Wilton Esteves Domingos Junior, 20. Vítimas de mais uma chacina policial.
Jú Ferreira
