FORMAÇÃO EM HOTEL CANARIUS- O QUE ISSO TEM A VER COM VOCÊ?
Como professora do Recife, venho assistindo boquiaberta a desqualificação profissional que o prefeito do Recife tem imposto a categoria, vale ressaltar, que muitas delas se alimentam da postura pouco crítica com que professoras e professores encaram sua profissão.
Sobre essa formação em Gravatá, no luxuoso Hotel Canarius, eu não consigo sequer conceber a ideia de participar de uma formação neste espaço, considerando a realidade das escolas do Recife, a nossa realidade de professor de educação básica e o descaso da Gestão Municipal acerca da questão salarial dxs professorxs!
Estamos no mês de outubro e até então, obtivemos 0,0% de reajuste do piso- indo de encontro a lei Federal que estabelece um reajuste de 7,64% retroativo a janeiro do ano de 2017;
A escola em que eu trabalho esteve desde agosto sem papel ofício- o papel é o mínimo, e ainda assim este mínimo esteve em falta. Todo material que utilizamos para fazer uma aula minimamente interessante para as/os estudantes é tirado do nosso bolso; A estrutura física das escolas do Recife é de fazer vergonha, é indigno, como posso eu ser tão contraditória com a realidade que está posta?
Fizemos greve, paralisações, atos, no intuito de cobrar, protestar contra todo o descaso que estamos cotidianamente submetidos no chão da sala de aula e até agora os resultados são mínimos!
Para a realização de formações, nós temos o Centro Paulo Freire, não vejo necessidade de -dada a nossa realidade- viajar pra Gravatá, pra fazer uma formação, apenas pra fingir que a educação em Recife é coisa de primeiro mundo e é valorizada. No "frigir dos ovos" quem ganha com esse tipo de marketing e de manobra é o PSB, e quem paga o pato o resto do ano todo somos nós e os estudantes.
Eu escutei todo tipo de justificativa de professorxs pra legitimar sua participação nesse encontro e nenhuma, nenhuma considero coerente com nossa realidade. Com tudo que esta acontecendo com nossa profissão e no país, nós precisamos compreender que nossas decisões enquanto categoria afeta a todxs.
Da mesma forma que venderam e vendem o direito à aula atividade, e reclamam de falta de tempo, vendem sua luta. São contraditórios com estudantes, com a realidade das escolas, não conseguem sequer compreender que tipo de educação esta sendo implantada no Recife (vem aí o decreto de avaliação punitiva), pois grande parte está tão voltada para seu "umbiguismo" que não conseguem ver nada além de si mesmos. Somos culpabilizados pelo fracasso escolar, somos o Messias que salva a todxs! Por que isso acontece? Olhemos nossas posturas, nosso senso crítico. Nem tudo é o PSB.
A luta é coletiva, as decisões tomadas afetam o coletivo, afetam a nossa profissão. Esse tipo de postura política (acrítica) afeta a educação que oferecemos. Que legitimidade tenho eu, para criticar uma gestão que nos afasta de todas as decisões ligadas a educação, se eu faço a mesma coisa enquanto categoria? Alguém sequer questionou porque é que não há dinheiro pra pagar o reajuste do nosso piso, mas há dinheiro pra pagar formação em Hotel de Luxo?
Ser professora e professor de escola pública é saber conjugar o verbo lutar, é entender que pequenas coisas falam por nós, e se colocar no lugar dxs estudantes, pais e principalmente entender o nosso lugar (de luta, de resistência de solidariedade) e a nossa função social enquanto professorxs, pois como bem dizia Paulo Freire "Ser professor e não lutar é uma contradição pedagógica".
Não quero chocolate, não quero formação em hotel luxuoso, quero ter material pra trabalhar, quero o cumprimento da lei do piso, quero condições estruturais para fazer um bom trabalho. Eu não me ajoelho. Eu não me vendo.