Se você é negra/o negro, pobre, morador de favela... Numa abordagem policial você é potencialmente culpado, talvez nem tenha direito de provar sua inocência. Cotas? Ora, cotas pra quê? Você tem as mesmas chances de entrar na universidade que um/a branco/a de classe média, se não entrou é porque não estudou, a culpa é sua, é sua família que é mal estruturada;
Se você é atropelado na rua, ninguém se importa. Afinal quem mandou andar de bicicleta durante a semana sem ciclovia? Na faixa azul dos ônibus? Teve o que mereceu!
Se você usa drogas e atiram você, dirão logo: Ora, quem mandou usar drogas? traficante! Menos um!
Se você é gay, lésbica, bissexual(...), e alguém te agride verbal ou fisicamente, você é culpado/a! É culpado/a sim, quem mandou você se contaminar por esse pecado? Isso é contra a natureza! Esta apenas pagando por isso!
Se você é travesti, transexual... se te matarem, te apedrejarem ou humilharem... Ah! quem se importa? você não merece viver em paz, afinal, você esta pervertendo a imagem de homens e mulheres. Você procurou, mereceu.
Se você usa saia curtinha, e um homem te estupra num beco escuro... Ah queridinha, você pediu, afinal quem mandou você andar com o rabo de fora? Você teve o que queria!
Se você é mulher, dona de casa, escrava do lar, e um dia porventura seu marido te dar uma bofetada... Ah, nossa! Deixa isso pra lá, a mulher tem que ser submissa! Pare de reclamar!
Você sai às ruas pra protestar, desarmado e se defende quando a polícia armada bate em você... Ah! Vândalos tem que apanhar mesmo, bota tudo atrás das grades!
Você faz greve em busca de melhores condições de trabalho? Educação de qualidade? Não tem o que fazer não? Tanta gente precisando de emprego!
Se você pára os ônibus protestando conta do aumento da passagem: Ah, esse bando de estudante vagabundo, atrapalhando minha volta pra casa, quando vê isso nem utiliza ônibus diariamente! Tudo filhinho de papai!
Eu estou descontroladamente enfurecida com você (comigo também), que sequer compreende o lado em que você se encontra, mas, que abre a boca para gritar que vivemos numa democracia! Nós não vivemos numa democracia, nós vivemos num país em que grande parte da população vive implorando um atendimento no SUS, vive morrendo nos corredores dos hospitais, vive trancafiadas em prisões (gradeadas ou não).
Vivemos num país onde milhares de pessoas passam fome todos os dias, e não tem sequer acesso a educação que o país diz universalizar. E é essa “democracia” que (re)produz e fabrica a miséria em todas as suas dimensões! Essa democracia se mantém e se reproduz em cima do preconceito, da violência. Ela se (re)produz também por conta de nossa postura política! Afinal, o que você faz para além de voto? Nós só escolhemos com qual molho seremos devorado/as. Meramente! E somos devorado/as diariamente: pela corrupção, pelos altos impostos, pelo gasto desnecessário para com esses politiqueiros de plantão!
É, eu ando totalmente enfurecida com esse bando de parasitas que teimamos em chamar de governantes, que manda bater em estudantes, que manda espancar professores, que expulsam milhares de pessoas de suas próprias casas em nome do progresso!
São também esses parasitas juntamente com uma cambada de burocratas, que ditam quem você deve ser, como e quando devemos fazer sexo ou amar, o que devemos comer, usar, comprar. E nós? Ora, nós assistimos a tudo isso de camarote, ou melhor em rede nacional. Estamos massivamente anestesiados!
Eu estou tristemente desanimada com a forma que olhamos para a vida do outro! Não é meu amigo, não é minha irmã, não é meu parente, eu não tenho nada a ver com isso!
Eu ando existencialmente farta de estar nas salas de aula e pensar: quantas dessas crianças chegarão à universidade? O que eu estou fazendo aqui? Como vou lidar sozinha com uma criança que tem o pai preso, a mãe vive obcecada pelo crack e é tratada como caso de polícia?
Não suporto mais olhar pra cara de pessoas que mensuram o progresso da sociedade a partir um beijo de novela! O que é um beijo, em meio a tanta violência que sofremos rotineiramente? O que é um beijo em meio a tantas mortes de LGBT?
Como posso sair pela cidade em paz, se em cada esquina eu vejo crianças, adolescentes, jovens e velhos/as na rua, cheirando cola, pedindo esmola, sofrendo... E sabe o que é mais triste? É que a maioria das pessoas naturaliza isso de tal forma que nem causa mais estranhamento.
Eu estou absolutamente cansada de tantas justificavas para matar, invisibilizar, marginalizar, estuprar, criminalizar e subalternizar! Eu estou cansada de suas desculpas, de suas culpas, de sua paz, de seus bons costumes, de sua religião fundamentalista, de seu emprego, de sua frieza, de sua tristeza, de nós.
Afinal, o que é que você esta fazendo aqui? O que estamos fazendo aqui?
Foto: Fetamce
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